A que horas viro pai?
- Matheus Ussam

- 15 de mai.
- 4 min de leitura
Estava rodando e pensando sobre a paternidade. Ouvi, neste período, um livro de Ana Suy que me despertou o interesse por falar de paternidade. Não como Piangers, cuja paternidade pode ser experimentada em um ambiente controlado, mas de forma mais psicanalítica. Não pretendo postular, e dizendo isto eu postularei baseado no que sei, no meu empirismo, o que é ser pai.
Poderia começar falando de Freud, mas não. Lembro-me na faculdade de um livro chamado "Por que Almocei meu pai". Vi em sociologia ou antropologia e foi indicado pelo que veio a ser meu arqui-inimigo naqueles tempos, o professor que chamara meu trabalho de réquiem logo após eu utilizar o trecho de uma música de Humberto Gessinger que ia de encontro - de maneira pessoal - ao próprio professor: "Você, que tem ideias tão modernas, é o mesmo homem que vivia nas cavernas". Crônica, Engenheiros do Hawaii, 1986.
Não me lembro do enredo do livro, também não importa, e não quero falar do motivo que tornou o professor meu antagonista, não quero me exibir. Mas o nome do livro é muito bom e instigante e em resumo, para que entendam, refere-se a homens das cavernas que querem acelerar a evolução (pesquisei isso para lembrar).
Mas qual a relação entre o livro de Ana Suy, este ocorrido na época da faculdade e a paternidade sob o meu olhar? Vejo que o pai não existe. Ao contrário da mãe que gera, que constrói o sujeito, o bebê, a criança, o pai parece um carimbador maluco, um fazendeiro que planta a semente e rega, que carimba seu gado, um daqueles fiscais que trem que conferem o bilhete do passageiro "Marquem, irmãos, Marquem". Agora essa rima vai ficar na minha cabeça o dia inteiro como na de Mark Twain.
O pai regula o indivíduo, é a figura de autoridade, a coleira que segura o sujeito até que se torne suficiente. É o vigia, guardador, guarda-costas, salva-vidas, super-herói até que o deixe de ser e isso pode ser ainda na fase da criança em que ela ainda não é suficiente para ser sujeito.
A figura do pai pode ser exercida por qualquer coisa, é irrelevante do ponto de vista natural. Mas entenda, não trato do ponto de vista psicológico, afetivo, mas do prático. Em que momento o homem vira pai? Talvez na concepção, ali na ejaculação. Mas talvez acabe ali a paternidade e o que venha depois é uma missão com início, meio e fim. Por exemplo, quando a mulher engravida ela passa a ter uma ligação física com a criança, o pai não, então ele precisa proteger a criança até que ela consiga se proteger, e para isso se junta com outros pais e criam uma sociedade, leis, regras, que facilitem esta proteção. Vão a guerra para garantir a continuidade da espécie específica a qual pertençam, se forem pais de meninos, acaba quando eles se tornam pais, se for de menina, quando elas se tornem mães. No caso da paternidade do filho, a solidão se perpetua ad infinitum por gerações, no caso da maternidade da filha ela é passada, a função de proteger, ao marido-pai. Caso seja só o pai e não marido, o próprio pai passa ainda a ter um dever moral de protege-la.
Mas ainda sim é uma função. O amor ali é um constructo, não é um pedaço do homem a paternidade, não é uma parte dele, o que sai dele é tão minúsculo que para atestar a paternidade somente com exame. A função masculina é vigiar, cuidar, proteger. Não que a da mãe não seja, mas até determinado momento, a ligação mãe-bebê é quase uma simbiose.
Amamente-se! Poderia dizer o pai, mas não funciona. A mãe, por sua vez, basta oferecer o seio. Esta ligação biológica é natural e diferente. Ao homem foi lhe apresentado um papel a desempenhar para que sua função não seja descartável (ou mais descartável). Romantizar a paternidade não constrói um pai, pois afinal de contas é mais importante um marido, no final das contas. Tenho observado a irrelevância que a sociedade dá ao pai, e ao mesmo tempo o que ela cobra. Nunca lhe foi ofertado o afeto e cobram que o tenham. Vi uma paciente amamentando seu recém-nascido em minha sessão, aquela ligação jamais terei, pois mesmo que queira haverá um objeto que substitui a mãe, no caso a mamadeira e ela sempre estará entre eu e meu filho.
Ouço muito na clínica a frase "estou ficando velha para ser mãe, preciso arrumar um marido". Que erro! Você precisa arrumar um semeador, um padreador, não um marido. Um marido é para você, o que você esta postulando é algo para seu filho. Entendam, não quero diminuir a função paterna, mas não acho inteligente dar a ela mais do que realmente é. A construção do pai passa pela função que ele exerce e, muitas vezes, é tirado dele este papel e se é lhe tirada a função, pra que serve? Para nada, eu diria. Na relação pai-filho, nada. Obviamente é muito útil para sociedade e para manter o status quo, ou destrui-lo. Ao homem não foi dada a ideia de existir, mas de ser funcional. Não é uma reclamação, mas é dado estatístico: 78% dos suicídios são cometidos por homens, ora se isso é um fato, significa que 78% das pessoas que não se enxergam com algum valor e se "desconectam" do mundo natural são homens sem função. Pai é uma função importante, não irrelevante, mas substituível. E isso não é uma Ode ao Pai, pelo contrário, é uma atestação de que o homem é homem e agregador de funções, o que a natureza humana quer modificar, sem saber ao certo como fazer para que se adeque ao que os outros desejam, não é uma opção de si mesmos. Ser pai não é uma escolha própria, é algo que é imputado por terceiros. Então a que horas eu viro pai? Não sei, talvez na hora em que exerço a função. Mas é perceptível a hora em que deixo de ser pai.



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