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A Teia que Aprisiona: Uma Pausa para Respirar (e Pensar)

A Teia que Aprisiona: Uma Pausa para Respirar (e Pensar)


Mais um ano, ou melhor, mais um final de ano, e cá estou eu me afastando da grande teia mundial. Não se trata de um discurso moralista sobre os males da internet; afinal, ela é a nossa praça pública, nosso mercado, e, sejamos sinceros, nosso divã digital. Contudo, é impossível ignorar a dualidade que o próprio nome sugere: a web conecta, mas também aprisiona.

Lembro-me da voz rouca do Gollum, aquele personagem magistral de O Senhor dos Anéis, que sou fã confesso: "Mosca atrevida, por que chora? Presa na teia! Logo você será comida!". E, de certa forma, é assim que me sinto. A internet, que deveria ser um portal de infinitas possibilidades, muitas vezes se revela uma armadilha pegajosa para a nossa atenção.


A Evolução (e a Derrocada) da Conexão

Vimos a evolução tecnológica engolir gigantes. A queda do Orkut, do Fotolog e do MySpace para o domínio do Facebook parecia apenas a marcha natural do progresso. O YouTube, que prometia ser a derrocada da TV a cabo e um farol de conteúdo independente, acabou por absorver a lógica de superficialidade e interação incessante das redes sociais. Não sucumbiu aos adversários; ele os absorveu, transformando-se em mais um palco.

A ideia inicial dos microblogs, para mim, era fascinante: um bloco de notas mental, pífio talvez, mas útil para registrar pensamentos soltos e lembretes como um post-it. O que se materializou, no entanto, foi um Coliseu digital onde o ego é a arma principal. Não é mais sobre compartilhar ideias, mas sobre lutar player x player para dar o fatality retórico no oponente. É um ciclo masoquista onde nos alimentamos da discórdia, jogando o ego alheio pela janela da nossa própria vaidade, num suco ácido de validação virtual. Toasty!

De Freud à Bolha Belicosa

Eu sou do tempo em que a interação social era tátil, embora, para ser honesto, isso fosse mais sofrimento do que saudosismo. Por isso, o Chat UOL, o IRC e o Netmeeting foram um alento. Eram como um grande mercado, uma sala de festas onde todos conversavam com seus copos de cerveja quente na mão. Deveríamos ter parado ali.

Mas precisávamos do Facebook, para que, como bem observou Freud em sua Psicologia das Massas, nos juntássemos em "varas de porcos" para chafurdar na mesma lama desejada. O paradoxo é que, ao invés de nos unirmos em temas bizarros e surrealistas como no Orkut, nossas bolhas no Facebook se tornaram estritas, diretas e, francamente, belicosas.


O que antes era um desabafo engraçado em comunidades absurdas como "queria sorvete, mas era feijão" numa clara alusão a frustração da vida em que, como diria minha avó: não podemos contar o ovo no cu da galinha (e cu não tem acento), se transformou em uma obsessão por criar grupos ideológicos com um único objetivo: destruir o outro. A partir daí, surge a cultura do Instagram, onde o foco migra do grupo para a construção individual. O "criador de conteúdo comum" — que não detém o poder econômico das grandes mídias — se torna a nova celebridade, construindo um mosaico psicológico de quem ele deseja ser para o mundo.


A Dança da Polarização e o Preço do Reconhecimento

É neste cenário que o divulgador científico e o teórico da conspiração começam a caminhar lado a lado. Eles fingem se empurrar e se degladiar nos finos cabos da atenção, mas, na verdade, estão de mãos dadas. Um não existe sem o outro neste ecossistema de polarização. A arte do "react" se tornou uma profissão rentável, um disfarce para a busca incessante por engajamento, curtidas e compartilhamentos.

Tudo isso é levado para a arena dos tribunais de minúsculas causas da internet, os microblogs, que têm um único motor: o reconhecimento.

Eu, você, o pensador famoso, o vizinho, o presidente, o cientista e o "bicho-grilo" — todos estamos ali, esperando a migalha de pão jogada por mãos sujas de um velho conhecido da humanidade, que se manifesta em muitas cabeças: ganância, ódio, vaidade, solidão.


O Produto Somos Nós (e Nosso Tempo)

Como psicanalista, eu não aconselharia, mas como comunicólogo, sou incisivo: redes sociais não devem dominar seu dia. Deletar o perfil é uma opção radical, mas entendemos que vivemos em um mundo hiperconectado. A solução mais prática é deletar os aplicativos do celular.

Todos temos rituais, e um deles é o de monitorar as redes. Por quê? Porque retroalimentamos, como quem acende um cigarro depois do café, um sentimento de superioridade ou pertencimento. Destilamos nossa acidez e ironia em comentários jocosos, oscilando entre a felicidade de ser amado pela resposta e o gozo de ser odiado e provocar a ira de muitos.

E o custo disso? Perdemos o que temos de mais precioso: o tempo. Damos de graça nossos minutos e horas para que as redes enriqueçam.


Quanto mais se comenta, mais engajamento, mais pessoas querem ser vistas e pagam por isso. Empresas pagam por isso. Eu e você somos o produto. Não há pressa em entender essa dinâmica, mas entenda que você não está ganhando nada além de uma sentença de distração.

Dividir para conquistar é e sempre será o melhor caminho para o lucro. Cria-se uma dicotomia, uma bipolaridade, e essas duas partes lutam entre si, consumindo tudo o que a ideologia do seu lado do muro oferece. O problema é que não são só duas partes; são milhares de tabuleiros com milhões de peões ávidos a defender seus lados, gastando o que não têm para provar que estão certos.


Nada mais infantilóide do que dedicar a vida a provar que você está certo. Quem se importa se o resultado não for de uso comum?

Saímos de uma sala de bate-papo onde todos falavam ao mesmo tempo para um microblog onde um sujeito pede seu voto prometendo lutar por uma causa que nem deveria existir, mas existe justamente para alimentar a polarização e criar um motivo para que mais pessoas precisem de alguém para representá-las. Ninguém quer o fim das mazelas do mundo; querem pessoas lucrando com elas e fingindo diminuir o sofrimento. Não vamos acabar com o câncer; vamos dar mais tempo de vida fazendo a manutenção dele.


As redes sociais são exatamente assim.

 
 
 

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